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Os acontecimentos mais recentes do Brasil e do mundo estão sempre presente nas provas e redações de vestibulares de todo o país. Para não ficar por fora, confira as matérias publicadas toda semana nesta seção!


Tragédias produzidas pela ditadura argentina


Toda ditadura deixa perdas, feridas e tristezas que se prolongam por mais de uma geração. Filhos que são criados sem pais, porque esses foram presos, torturados e mortos por um regime que se considera acima da lei e da humanidade, achando que “os fins justificam os meios”. Mães que perdem de forma injusta e dramática seus filhos cheios de sonhos e ideais. Cidadãos que são obrigadas a deixar a família e o país que tanto amam para se exilar no estrangeiro, onde não são bem-vindos.

Todos esses males, narrados de forma tão resumida, podem não impressionar uma geração acostumada à democracia e à liberdade, mas aqueles que sofreram o impacto direto ou indireto dessa realidade sabem da importância de impedir que regimes totalitários tomem conta de um país, sob que justificativa for.

As marcas deixadas pelos sete anos da ditadura militar argentina (1976-1983) ainda estão muito presentes na vida da população. Muitas crianças pequenas, sequestradas junto com os pais pelos militares, desapareceram. Guerrilheiras grávidas capturadas e presas pela ditadura sumiram, assim como seus bebês. Passaram-se cerca de três décadas e as Avós da Praça de Maio se empenham para descobrir onde andam essas crianças, filhos e filhas de seus filhos mortos pela repressão militar.

Dupla identidade

Mais de cem casos já foram resolvidos. Enquanto os pais foram torturados e mortos, as crianças tiveram a identidade alterada e foram adotadas por famílias ou parentes de militares, que sabiam da sua origem. Com nomes e sobrenomes mudados, oficialmente, essas crianças estão, hoje, na faixa dos 30 anos. Durante o seu crescimento e adolescência não podiam imaginar que tinham uma outra estória interrompida e que estavam sendo criadas com carinho pelos algozes de suas famílias.

As Avós da Praça de Maio não desistem. Já mostraram empenho quando eram as Mães da Praça de Maio, cobrando e exigindo informações sobre seus filhos desaparecidos e pela punição dos responsáveis por suas mortes. Agora pedem aos jovens, que tenham qualquer dúvida ou desconfiança sobre sua origem, para comparar seu sangue com as amostras deixadas pelas famílias dos desaparecidos, que estão guardadas num banco genético em Buenos Aires. Só assim, o crime pode ser comprovado e punido, arrastando ao banco dos réus  os governantes e as famílias implicadas. 

Na Argentina, existem centenas de jovens que, apesar de não terem qualquer responsabilidade pelo que aconteceu há mais de trinta anos, pagam até hoje o preço do passado. Alguns querem saber quem são, outros preferem ficar na dúvida para não destruir a família que aprenderam a considerar como sua. Muitos filhos de desaparecidos também já têm seus próprios filhos, que vivem felizes com aqueles que julgam ser seus verdadeiros avós.

Os jovens que enfrentam a dura revelação da análise do sangue, descobrindo a verdadeira história de suas famílias - a que conheceram e a que foi vítima da crueldade e dos desmandos da ditadura – têm que aprender a administrar o conflito íntimo e a conviver com essa nova realidade, que implica perdão e conciliação.

Uma lei aprovada no ano passado obriga os supostos filhos de desaparecidos a conhecer suas origens. Se não quiserem dar seu sangue para compará-lo com amostras dos parentes desaparecidos, a polícia pode realizar uma batida para recolher roupas, escova de dentes e outros objetos pessoais que tenham material genético.

Grande parte dos argentinos considera importante saber a verdade para construir um país melhor. Contudo, a lei desconsidera os direitos dos filhos dos desaparecidos que não querem conhecer suas verdadeiras identidades.

Enfim, a Argentina optou por apurar e punir os responsáveis por essa e as demais tragédias causadas pela ditadura. Uma valente decisão, exigida pelo povo argentino. Assim, no próximo mês, dois militares do alto comando da ditadura argentina voltarão ao banco dos réus. Dessa vez serão julgados pelo roubo e pela mudança de identidade de 500 crianças nascidas em cativeiro ou seqüestradas nesse período.


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