CIÚMES NO DIVÃ
Mesmo que seja sensato relativizar o conceito de “normal” e “sadio”, o(a) companheiro(a) de um ciumento patológico sabe bem o que significa extrapolar a normalidade: dúvidas que se transformam em certezas delirantes, brigas freqüentes por conta de ciúmes e suspeitas que promovem inquirições, obrigando o parceiro a omitir encontros, presentes e elogios. Segundo a psicanalista Célia Seraphico, “é próprio do ser humano o desejo de controle, de posse, de marcar terreno dizendo: isso é meu. Mas a exacerbação dessa situação comum, normal e necessária caracteriza o ciúme patológico”. Uma das origens desse fenômeno é a dificuldade, a quase impossibilidade, de compartilhar, de dividir o “primeiro amor” de nossa vida com os outros. Todos já experimentamos o ciúme. Este sentimento nos habita desde sempre e se forja numa situação universal: a relação de qualquer criança pequena com o mundo que a circunda. Célia explica que inicialmente esse mundo é a família (papai, mamãe, talvez irmãos). “O ciúme brota da vivência de exclusão, como, por exemplo o nascimento de uma nova criança na casa, que pode produzir vários entendimentos: papai e mamãe me traíram; papai e mamãe não querem só a mim; papai e mamãe só se querem, me excluem, e ainda trazem outra criança...”. Estas experiências podem ser vividas de forma normal ou de maneira trágica, por isto é tão importante que o ambiente familiar facilite às crianças a assunção e a manifestação das suas inclinações positivas, amorosas, ternas como as de hostilidade, raiva e ciúmes. Relatos da infância, que recordam cenas de ciúmes, são comuns em todas as famílias: “quando seu irmão nasceu, você empurrou o carrinho, jogou talco no bebê, queria dar o bebê para a vizinha” e outras coisas do gênero que demonstram a presença da “ameaça” de deixar de ser o “único”, o querido. Essa ameaça, diz a psicanalista, vem pela vivência da diminuição da ternura e dos privilégios que se gozava antes da chegada do “outro” e das exigências crescentes decorrentes do próprio crescimento, da realidade, da educação, das punições, das novas responsabilidades que podem ser vividas como uma confirmação de não ser o preferido, de ser pouco importante, ou de ser inferior. Estes ingredientes servem de incremento ao ciúme. O ciúme depois da infância Na adolescência, revive-se outra vez esses sentimentos, principalmente com os camaradas da “turma”, face ao desejo de conquista dos amores eróticos. A saída da adolescência é a dor e a alegria da perda das ilusões da infância, e envolve, principalmente, a difícil passagem da aspiração de ser tudo para alguém significativo, para uma etapa em que o desejo é de uma relação a dois onde haja liberdade para expansão do próprio eu e de enriquecimento pessoal, ou seja, é preciso deixar de querer ser tudo para o outro para tornar-se alguma coisa. O ciumento grave não admite isso, afirma Célia. “Nesses casos, há um desejo de posse absoluta e exclusiva “do amor do outro” e qualquer desatenção, faça não... pode ser a gota d’água! Essa gota d’água transborda a imaginação e se manifesta através do sentimento, também absoluto, de exclusão, de abandono e o consequente sentido de humilhação pois a autoestima e a autoconfiança são atingidas”. O ciúme patológico, que pode inclusive engendrar o delírio, já que a realidade é imaginariamente distorcida, traz à cena da vida o personagem do “terceiro excluído” com a crença de que dois se juntaram para formar uma dupla terrível (o ciúme compreende uma relação de, pelo menos, mais outras duas pessoas) que passa a perseguir, a maltratar e a humilhar alguém isolado, desamado, desimportante, abandonado. Essa dupla tem como matriz, a dupla do início de nossas vidas e as filiais, podem tomar a feição do gerente e de um colega, da empresa e do gerente, de dois colegas de trabalho, etc e no campo do erotismo, de um rival e de um traidor. O sujeito com ciúme sente que o amor que lhe é devido foi roubado, ou está em perigo de sê-lo pelo rival. O ciumento teme perder o que julga pertencer-lhe. O ciumento sofre muito e também faz sofrer. O tratamento psicanalítico dá maior ênfase aos fatores internos desencadeadores do sofrimento – infância, relação com os pais/irmãos, vida imaginativa - tendo em vista “que a maioria das pessoas, embora adiantada em anos, ainda não terminou de “celebrar” seu nascimento psíquico. Como todo nascimento este também é “doloroso e difícil”, garante Célia. Nesse sentido o terapeuta pode ser considerado o “parteiro da alma” porque facilita o “nascimento” através do processo terapêutico.
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