Dia a Dia

Amamentação em público

Contradições sociais

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15 de julho de 2014

Parece que a evolução dos costumes resiste a um dos gestos mais genuinamente naturais: a amamentação. Curiosamente em uma época em que o corpo feminino é tão exposto, em filmes, propagandas, tevê e até pela moda, com suas transparências, fendas e decotes, encontramos reações negativas, censurando mulheres que amamentam em espaços públicos. 
 
A feminista Suzane MacNevin revelou em um artigo no The New York Times que anualmente 12 mil mulheres são detidas nos Estados Unidos por amamentarem seus filhos em público. Embora a prática não seja proibida no país, em vários estados norte-americanos, as mães são enquadradas em leis contra a “indecência”. 
 
Por esta razão, um projeto de lei no Texas, que pretende proteger de assédio e discriminação às mães que optarem por amamentar em público ganhou o apoio de uma dupla de estudantes de Artes da University of North Texas. Os jovens criaram cartazes com mães amamentando em banheiros insalubres e apertados com a pergunta: “Você comeria aqui?”. A repercussão tem sido enorme. 
 
Se no Brasil não chegamos a prender, somos capazes de intimidar, através de advertências, censuras explícitas, olhares maliciosos e “convites” para que as mães que estejam amamentando se “escondam” do público, alegando uma “proibição” interna da Instituição (museu, exposição, etc).  
 
Um novo olhar

Era de se esperar que décadas após os movimentos de liberação sexual femininos, o tema amamentação fosse encarado com mais naturalidade. O uso da pílula anticoncepcional e a queda do tabu da virgindade, se não se tornaram unanimidade, influenciaram bastante o comportamento social e sexual tanto feminino quanto masculino do mundo ocidental. As mulheres se tornaram mais “donas” de seu corpo e mais conscientes de suas opções e escolhas. 
 
Rapidamente o mundo comercial se apossou dessas conquistas, transformando-as em produtos. Propagandas abusando da sensualização do corpo feminino (e agora também do masculino) são comuns a qualquer hora do dia, especialmente no Brasil. Embora convivamos com isso diariamente, há quem se sinta cheio de pudor ao ver uma mãe amamentando em público...   

A queixa é de que o ato de amamentar em público é exibicionista e provocativo, e nele exista chocantes componentes de sensualidade. Mas, se pararmos para pensar, não há nada mais espontâneo e natural que a amamentação, inclusive porque ela ocorre para acalmar a fome do filhote - um instinto básico que quando aflora no bebê é exigida urgência. Ao contrário da sensualidade exibida em fotos e filmes, que é exaustivamente ensaiada para atender aos objetivos de provocação.

Amamentar em um ambiente tranquilo, intimista e confortável é muito desejável, mas nem sempre possível. Também não faz sentido que em uma época de tanta nudez exposta e de tanta consciência da importância da amamentação para a criança, que uma jovem mãe tenha que se enclausurar durante o período de aleitamento do seu filho - que pode chegar a um ano ou mais - porque algumas pessoas fazem a leitura errada de um ato absolutamente maternal.  
 
Seríamos mais felizes como sociedade se incentivássemos a amamentação em público e censurássemos outdoors, revistas e programas de tevê que frequentemente expõem nossas crianças a uma nudez e sensualidade poucas vezes artística... 
 
 



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