VIZINHOS INTRANSIGENTES
Brigas pela beleza do espaço público É bastante conhecido o valor que os alemães dão ao espaço público. Cuidam da limpeza das ruas e da manutenção dos belos jardins das suas cidades como se fossem seus. Jogar papel no chão? Nem pensar! Uma verdadeira heresia! O trabalho cotidiano dos lixeiros e jardineiros é reconhecido e respeitado por cidadãos de todas as idades. Dizem que a população é até mais exigente e cuidadosa com a limpeza e a organização do espaço público do que com o interior da própria casa. Verdade ou não, o fato é que quem visita as cidades alemães tem sempre uma boa surpresa com as fachadas quase impecáveis, limpas, pintadas e floridas, calçadas bem arrumadas, praças super-cuidadas e ruas corretamente pavimentadas. Tão diferente do cenário brasileiro e da maioria dos países sulamericanos, que veem o espaço público como sendo de ninguém e, portanto, palco para todo tipo de vandalismo e de descaso, inclusive o das autoridades. Aí a admiração pelo povo germânico vira até inveja! Da inveja ao espanto Mas, é espantoso e preocupante quando se sabe que esse zelo pode se tornar tão radical que alimenta a rabugice de alguns, leva à invasão da liberdade e privacidade do vizinho, e gera graves conflitos, que terminam na Justiça ou na prisão, após algum lado cometer um crime. As brigas podem ser sobre a identificação do vizinho cuja árvore é responsável pela queda, no outono, de centenas de folhas sobre a rua ou sobre cães que latem demais, crianças que gritam, churrasqueiras que soltam fumaça em excesso ou se o vizinho pode “enfeiar” a rua lotando seu quintal com anões de jardim - o que é considerado brega por alguns. Conhecidos como gartenzwerge e criados em 1874, na região de Turíngia, os anões simbolizam a dedicação dos mineiros locais ao trabalho. Embora Turíngia fique localizada no Leste alemão - região dominada pelo Cortina de Ferro durante muitos anos depois da Segunda Guerra Mundial - os enfeites conseguiram sobreviver ao regime comunista, se tornando o principal produto de exportação da pequena cidade de Grãfenrode. Apesar de muito populares, os anões, no entanto, não conseguem a unanimidade alemã. Visto por uns como o suprassumo de mau-gosto e por outros como lindos enfeites, eles têm aumentado a discórdia entre vizinhos. Para evitar que essas demandas sobrecarreguem os tribunais alemães, o Ministério da Justiça criou a figura do mediador que, indicado pela Justiça, ajuda os antagonistas a resolver suas diferenças sem precisar recorrer ao tribunal. Você deve estar se perguntando se não é ingerência demais, em nome da beleza da cidade, vizinhos quererem interferir na decoração do quintal ou do jardim dos outros. Mas, um pouco desse orgulho pelo espaço coletivo não faria nenhum mal a nós brasileiros... Ao contrário, isso iria evitar bueiros entupidos de lixo, calçadas arrebentadas, praias sujas e os horrorosos “frades” para impedir que carros estacionem nas calçadas feitas para pedestres. E o que dizer das fachadas de casas e prédios completamente deterioradas? Até que um pouco de orgulho pela própria cidade associado à natural fraternidade brasileira poderia dar uma excelente combinação!
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