SOBRE HOMENS E ALBATROZES
A delicadeza no mundo animal Um artigo sobre Ciência, de Jon Modallem, do New York Times, publicado no Globo de 02/04/2010, comenta a pesquisa sobre albatrozes realizada pela bióloga americana Lindsay C. Young, que estuda, desde 2003, uma colônia dessas aves marinhas em Kaena Point, no Havaí. Os albatrozes se tornaram ícones da monogamia e chegaram a ser exaltados pela ex-primeira dama americana, Laura Bush, pela longevidade com que abraçam seus “compromissos”. Até onde existem registros, há casais que permanecem juntos por 19 anos (quase Bodas de Prata!), quando a vida de um albatroz pode durar cerca de 60. Mas, dessa vez, o que causou grande frisson entre os humanos foi a constatação de que 1/3 dos casais de albatrozes de Kaena Point é composto por duas aves fêmeas e não por um macho e uma fêmea, como se pensava. Assim como acontece com várias espécies de animais, os albatrozes macho e fêmea da região (existem outras espécies espalhadas pelo mundo) parecem idênticos, dificultando a diferenciação. Os pares de fêmeas, segundo a cientista, “incubam juntos os seus ovos e passeiam juntos na frente de todos os outros animais da colônia”, que seriam, pelo linguajar humano, considerados “heteros”, expressão que a cientista é cautelosa em usar. Da mesma forma, ela se recusa a chamar essas duplas de “lésbicas”, nem a julgar se tecnicamente seriam classificadas como tal, já que essas expressões embutem preconceitos humanos. Diversas formas de atividade em animais do mesmo sexo já foram registradas em diferentes espécies, informa o artigo de Modallem: “de flamingos a bisões, de besouros a porcos selvagens”. Entre bichos e homens Enquanto no ambiente científico há cautela em julgar ou explorar o tema, o mesmo não acontece fora dele. Para o bem ou para o mal, os homens sempre se valeram de comparações entre o comportamento humano e animal, ora exaltando o homem como ser racional, ora enaltecendo os bichos por obedecerem a seus instintos naturais que determinam: atacar apenas para se defender e sobreviver; e exercer suas funções de “macho” ou de “fêmea” conforme programadas pela Natureza. A revelação dessa pesquisa irritou os mais conservadores e deliciou as vítimas de preconceitos. Um senador americano da ala tradicional questionou o investimento numa pesquisa que usa a ciência para fazer “propaganda da pior espécie”, enquanto um grupo gay solicitou que fossem colocadas bandeiras com as cores do arco-íris em cada ninho, como demonstração de “solidariedade” (será que os albatrozes precisam disso?). Exageros e exaltações à parte, esse é um daqueles momentos em que a revelação científica impõe às sociedades humanas uma reflexão. Conceitos equivocados, cristalizados ao longo do tempo, quando abalados pela ciência exigem um novo olhar e um novo comportamento. O estudo constata que o interesse sexual pelo mesmo sexo, que já foi classificado como “sem-vergonhice”, “anomalia” ou “antinatural” é mais uma forma da Natureza se manifestar e se expressar. O importante é que os humanos acolham com sabedoria e inteligência essas informações, aprendendo a respeitar as características alheias que não representem prejuízo para a Humanidade e para a Natureza. Nem a ameaça de prejuízo à preservação da espécie, tantas vezes usada para a defesa do preconceito, pode servir de argumento. Afinal, a espécie humana há anos convive com todo tipo de anticoncepcionais e formas de indução de abortos, sem com isso deixar de crescer continuamente.
|